Volta e meia recebo um email de um amigo, amigo de amigo, colega de amigo, colega de colega ou alguma outra combinação pedindo dicas sobre o processo de imigração para a Austrália. Não me sinto qualificado para auxiliar nos detalhes de uma aplicação específica para o visto, uma vez que fiz o processo somente uma vez, envolvia o meu caso (relativamente simples) e foi lá em 2002. Mas para me economizar trabalho fiz uma coletânea de comentários gerais (de bom senso) que passei em vários emails de resposta e acho que ajudam a dar direção a quem pensa em começar o processo.
Alguns comentários têm um foco maior em TI, já que essa é a minha área e foi a experiência que eu tive, não posso falar sobre a facilidade ou dificuldade das outras. E óbvio que se somente os comentários abaixo fossem suficientes para enfrentar todo o processo de visto, eu estaria cobrando por eles e não colocando de graça aqui no blog... Portanto, tire suas próprias conclusões e tome suas próprias decisões! :-)
Comentários sobre o processo de Skilled Migration Visa para a Austrália
0) Isso mesmo, comentário "zero": para grande parte dos casos, a maior parte das informações necessárias para solicitar um Skilled Migration Visa está no Booklet 6 do próprio Departamento de Imigração da Austrália (DIMIA). Portanto, leitura fundamental pois responde várias dúvidas específicas. Decore o livreto.
1) Por vários exemplos que vi, o processo de ponta-a-ponta leva 2 anos, entre estudar o processo, validar o diploma, completar a application e esperar pelo visto.
2) Para quem é de TI, tem menos de 30 anos, 3 ou mais anos de trabalho na área e nível de inglês bom é relativamente fácil atingir os pontos necessários.
3) O processo como um todo é trabalhoso e requer muita documentação para comprovar os pontos que está se tentando comprovar, mas eu diria que é muito mais trabalho de correr atrás e paciência de estudar, ler e reler para fazer tudo direito do que necessariamente algo complexo e difícil.
4) O processo do visto vai consumir uma grana, além da própria taxa do visto tem que considerar IELTS, Sedex Internacional, exames médicos, milhares de cópias autenticadas e as facadas das também milhares de traduções juramentadas. Mas sempre digo: considerando que é uma grana que se gasta para eventualmente mudar de vida, é muito barato, mas tem que se estar preparado para o gasto. Se é só para pensar em eventualmente imigrar, é uma brincadeira cara. Na hora de mandar documentação, melhor pedir, traduzir e mandar demais e comprovar tudo direitinho do que mandar de menos para economizar cem pila.
5) Quando fiz o visto contratei um agente de imigração e paguei uns US$1.000, hoje isso custa duas ou três vezes mais pelo que sei de conhecidos. Por outro lado, a não ser que analisando os booklets e formulários a pessoa veja que sua situação é muito especial e tem muitas dúvidas, provavelmente hoje em dia eu faria tudo sozinho e pagaria uma consultoria de imigração por hora (oferecida por algumas agências, internet ou telefone, na base de US$100/h) para tirar dúvidas e fazer uma revisão final, pois tem muita informação disponível tendo a paciência e tempo de pesquisar. De novo, a grana nisso pode ser a diferença entre conseguir o visto (por ter uma boa documentação) ou não. Sendo assim, no final das contas pagar um agente ou não é uma questão pessoal: situação individual para comprovar os pontos versus risco versus custo versus paciência/disciplina que cada um tem para entender o processo. Para casos que não são exceção, diria que é possível fazer com bastante atenção e cuidado sem contratar um agente. Mas aí no mínimo eu pensaria em usar de 3 a 5 horas de consultoria para validar os passos-chave (início do processo, validação do diploma, contagem e comprovação dos pontos e revisão da application), é dinheiro bem gasto.
Se eu fosse escolher um agente hoje iria pegar alguém que tenha bastante volume de processos (=experiência), seja registrado na Austrália, fale português (para mim era tranqüilo falar com meu agente em inglês por ter morado fora antes, mas para quem não tem fluência total, não dá prá arriscar entender algo errado ou não saber fazer a pergunta certa) e - um bônus - tenha algum representante no Brasil que eventualmente se possa conversar pessoalmente. E mais importante que tudo isso: alguém que seja bem recomendado por uma pessoa que já o utilizou.
6) Outra coisa é que hoje em dia tem muito mais informação em fóruns do que em 2002. Só tem que cuidar porque essa é uma faca de dois gumes: tem gente em fórum que só fez o seu processo e - por ter tempo livre - é quem mais responde dúvidas, sem ter a mínima experiência de outros processos diferentes do seu. Eu já li muita coisa boa em fórum, mas também já li besteiras sem tamanho que se eu tivesse ido atrás teria arriscado não conseguir o visto (no caso o visto da Marti, que pedimos depois de eu já ter o meu). Então deve-se usar os fóruns para pesquisa, mas sempre é necessário julgar bem o que se está lendo e sempre validar se o que está sendo lido é correto e que autoridade a pessoa que postou tem para falar do assunto.
7) Uma dica para economizar grana: ao pedir carta para os empregadores comprovando tempo de experiência de trabalho ou outros documentos que no fim das contas a gente mesmo redige de acordo com o que precisa e a pessoa só lê e assina, dá para fazer já em inglês e pagar um bom professor para revisar: sai mais barato e é mais fácil que fazer a tradução juramentada depois. E sempre ter duas vias de tudo, pois uma vai ser enviada pelo correio e pode simplesmente se perder (já aconteceu comigo e com outros). Por sinal, antes de mandar a application convém fazer uma cópia dela inteira: imagina o estresse e retrabalho só em lembrar do que tinha nela caso seja perdida?
8) O primeiro passo será validar o diploma com a ACS (no caso de TI, para outras profissões são outros órgãos). Recomendo ao decidir o job code a olhar também a lista de profissões mais em demanda (muda regularmente), por exemplo na última consta "Especialização em J2EE" e várias outras bem comuns de alguém da área ter. Além dos pontos da profissão (TI), profissões/especializações da MODL (Migration Occupations in Demand List) dão pontos extra, então caso a pessoa se enquadre, faz sentido já escrever as cartas bem consistentes com isso e pedir que a ACS reconheça, além da profissão nominada, a especialização (a página no link tem um asterisco explicando melhor isso). Se não pedir reconhecimento da profissão específica da MODL na primeira vez, depois tem que fazer toda validação de novo para poder pedir os pontos na application.
9) Para os que ainda não admitiram para si mesmos que estão casados, mas querem imigrar com a "namorada" (=esposa, mas apesar do mundo todo saber só você ainda se engana que não é): antes de iniciar todo o processo, vale ler o que é exigido em termos de provas de que vocês são um casal. A Austrália reconhece "casal de fato" (não casados no papel, mas provam que compartilham uma vida em comum), mas dependendo do que disser no booklet pode valer a pena pensar em oficializar a coisa e casar no cartório ou registrar união estável, não sei até que ponto ser "casal de fato" acaba exigindo um número bem maior de comprovações do relacionamento, o que pode ser chato e caro de providenciar. Com essa todas as "namoradas" vão querer imigrar para a Austrália... :-)
10) Para todos os casos e dúvidas no processo de visto para imigração, vale o bom senso. Quando fiz o visto (e acho que é o caso de muita gente), tinha uma visão de um departamento de imigração muito baseado em Estados Unidos, que tem uma imagem de austeridade e - a princípio - de não tratar bem solicitantes de visto. Mas a experiência com a Austrália desmistificou muito essa imagem: lembrem-se que o país precisa de imigrantes qualificados, eles querem que as pessoas entrem no país (se forem qualificados). Ao ligar para o Departamento de Imigração para tirar dúvidas da Marti, fui atendido em um call center extremamente profissional, ouvi parabéns por ter escolhido imigrar para cá e os solicitantes de visto eram chamados de "clientes". Eles são extremamente acessíveis, inclusive descobri que dúvidas bem específicas pode ser tiradas com eles, mandando email para o DIMIA diretamente ou através da Embaixada no Brasil. Lembrem-se, eles precisam de gente, portanto não é necessário temer fazer uma pergunta pois muito provavelmente a resposta será profissional e isenta, ninguém vai marcar que "o fulano parece estar querendo entrar aqui". Eu pelo menos tinha esse estereótipo de imigração e ao entender melhor como é foi mais fácil tomar decisões sobre o visto. Acho que uma maneira boa de pensar é: os caras querem gente qualificada e se eu acredito que tenho os pontos necessários para imigrar (premissa básica) meu objetivo é apresentar da forma mais clara, direta, inequívoca e completa a quem analisar minha documentação que eu preencho os critérios e portanto facilitar a decisão de que eu devo ganhar o visto.
Bom, espero que esses comentários sejam proveitosos. De novo, isso é só minha experiência pessoal e cada um deve julgar sua situação individual (releia o item 6...). Se realmente forem ótimos comentários que fizeram a diferença entre alguém receber ou não o visto, por favor me mandem um email que em seguida envio o número da minha conta para depósito da taxa de consultoria. Lembro que trabalhamos com dólares australianos. :-)
Boa sorte!